Referencial de Competências Socioemocionais
O Arco Maior, consciente de que o seu foco educacional está centrado na inclusão escolar e socioprofissional dos seus alunos, jovens em elevado risco de exclusão social, procurou, ao longo dos anos, encontrar um quadro referencial em que o seu labor diário pudesse ancorar e que tivesse real potencial de inclusão dos jovens que acolhe e educa.
Desde 2022/23 que temos estado a seguir o modelo CASEL e a aplicá-lo com os nossos alunos e educadores. Contámos inicialmente com o apoio da Fundación Tomillo (Madrid-Espanha) e, a par e passo, viemos a verificar que se trata de um instrumento muito poderoso, uma vez apropriado pelos educadores e pelos alunos e inserido no quotidiano dos trabalhos escolares.
Apresenta-se uma breve descrição sobre o modelo CASEL e sobre o modo como o temos vindo a aplicar.
Aprendizagem Socioemocional e Modelo CASEL
Criado em 1994, em Chicago (USA), o Casel (the Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning) é uma organização internacional sem fins lucrativos formada por uma grande comunidade de pesquisadores, professores e diversos outros profissionais do segmento educacional.
O seu principal objetivo é disseminar o impacto da aprendizagem socioemocional ao longo da vida dos indivíduos, bem como demonstrar quanto as capacidades socioemocionais geram benefícios para as pessoas e para a sociedade como um todo. O grupo pioneiro na organização do CASEL é formado por professores, pesquisadores e legisladores que realizam pesquisas e criam ferramentas e programas com eficiência comprovada. Há mais de três décadas, eles buscam, por meio de seus materiais e atividades, tornar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais parte integrante da educação – desde a educação pré-escolar até o ensino superior.
Historicamente, eles criaram o conceito de “Social and Emotional Learning (SEL)” que hoje nós trabalhamos. De maneira simples, podemos dizer que a aprendizagem socioemocional é um processo de desenvolvimento, aquisição e aplicação de conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para gerir e compreender emoções de modo positivo e saudável.
Definição de Aprendizagem Socioemocional (adotada pelo CASEL)
A aprendizagem socioemocional (ASE) é parte integrante da educação e do desenvolvimento humano. A ASE é o processo pelo qual as crianças, jovens e adultos adquirem e aplicam conhecimentos, habilidades e atitudes para desenvolver identidades saudáveis, gerir emoções, alcançar objetivos pessoais e coletivos, sentir e demonstrar empatia pelos outros, estabelecer e manter relacionamentos de apoio e tomar decisões responsáveis e cuidadosas.
A ASE promove a equidade e a excelência educacional por meio de parcerias efetivas entre escola, família e comunidade, que estabelecem ambientes de aprendizagem, experiências e relacionamentos amparadas na confiança e na colaboração, um currículo estruturado e significativo com instrução direta e avaliações contínuas. A ASE pode ajudar a diminuir diversas formas de desigualdade e empoderar crianças, jovens e adultos para cocriar escolas prósperas e contribuir para comunidades seguras, saudáveis e justas.
Estrutura e sua descrição

O modelo CASEL considera cinco grandes CSE, a que a Fundação Tomillo acrescentou uma sexta, que perfilhamos:
1. Autoconhecimento
Capacidade de reconhecer com precisão as próprias emoções, pensamentos e valores, e como estes influenciam o comportamento. A capacidade de avaliar os próprios pontos fortes e limitações com confiança, otimismo e mentalidade de crescimento. Compreender que a forma como aprendemos a viver e a expressar as emoções está relacionada com a socialização diferenciada por género.
2. Autorregulação
Capacidade de regular satisfatoriamente as próprias emoções, pensamentos e comportamentos em diferentes situações — gerir o stress, regular impulsos, automotivar-se. A capacidade de estabelecer metas pessoais e académicas e trabalhar para as alcançar. Compreender como os mandatos de género atuam sobre a forma como valorizamos as emoções, as expressamos ou inibimos a sua partilha.
3. Tomada de decisão responsável
Capacidade de tomar decisões construtivas sobre o comportamento pessoal e as interações sociais com base em padrões éticos, de igualdade, segurança e normas sociais; a avaliação realista das consequências de várias ações e a consideração do bem-estar pessoal, dos outros e do planeta.
4. Competências relacionais
Capacidade de estabelecer e manter relações saudáveis e enriquecedoras com diversos indivíduos e grupos, e de demonstrar empatia pelos outros. Inclui a capacidade de comunicar com clareza em diferentes contextos e de ouvir ativamente.
5. Competência social
Capacidade de adotar a perspetiva de outras pessoas, incluindo aquelas de diversos contextos, géneros e culturas, e de trabalhar em colaboração com os outros.
6. Agente de mudança
Capacidade de identificar problemas à nossa volta, procurar soluções e levar a cabo ações que contribuam para melhorar o nosso ambiente e cuidar do planeta. Aprendemos para sermos agentes de transformação do mundo e para vivermos juntos e em paz.
Este modelo está validado internacionalmente e testado em jovens com perfil de risco de exclusão social, o que para o Arco Maior constitui uma importante mais-valia.
Como trabalhar estas CSE com os jovens?
Os investigadores que procuram conhecer como desenvolver as CSE com os jovens sugerem quatro estratégias reconhecidas pelo acrónimo SAFE:
- Sequenciais: não se podem realizar todas de uma vez; é necessário priorizar e sequenciar no tempo.
- Ativas: aprendizagem ativa, não teórica; desenvolvemos competências através da prática e da experiência.
- Focadas: desenhando estratégias que permitam desenvolvê-las no tempo.
- Explícitas: cada jovem é consciente de que competências está a desenvolver, o que significam e porque são importantes para si mesmo.
As 17 Competências Sociais e Emocionais
As diferentes competências estão agregadas em três grandes dimensões de competência: Ser, Crescer, Pertencer.
No domínio do Ser, compreendemos o autoconhecimento e a autorregulação (7).
No domínio do Crescer, incluímos as competências relacionais e a tomada responsável de decisões (7).
No domínio do Pertencer, inserimos as competências sociais e o ser agente de mudança (3).
(Ver o esquema anexo com todas as competências)

Como aplicamos o modelo e as 17 CSE?
Existe um importante trabalho já desenvolvido para esclarecer de que consta cada uma destas CSE, tendo em conta cada aluno, o seu perfil, o seu estado atual e o caminho que quer e pode seguir.
Como não acreditamos que nomear as CSE a desenvolver com e por cada jovem serve para pouco, existe um manancial de atividades específicas para desenvolver cada uma das CSE.
Os estudos sobre esta temática enfatizam que o desenvolvimento das CSE alcança melhores resultados quando está integrado no currículo e conectado com todas as outras atividades escolares e quando todos os educadores e alunos se familiarizam com oos seus conceitos e o seu uso diário.
Criámos o Roteiro de Objetivos de Aprendizagem e Desenvolvimento (ROAD) (ver texto específico), um instrumento de apoio individual a um desenvolvimento mais harmonioso. Nestes ROAD, cada aluno e a equipa pedagógica integram as diferentes competências a adquirir num certo período, geralmente o tempo de cada projeto interdisciplinar. Por isso, cada ROAD está dividido em CSE e em conhecimentos a adquirir nesse período (em articulação com as disciplinas dos cursos) processo que é apoiado por um professor-orientador ou tutor. Quando os alunos realizam atividades integradas nas Oficinas e nos serviços à comunidade (no “ArcoServe”, ver texto específico) existe uma extensão do ROAD, para que também nestes contextos sejam trabalhadas as CSE e os conhecimentos a adquirir.
A Equipa Pedagógica acompanha e integra todo o processo de desenvolvimento de cada aluno. A literatura também evidencia que só com equipas capazes de uma implementação de alta qualidade deste modelo se produz um impacto real e positivo.
Estamos todos os dias a aprender, alunos e educadores, e o balanço que fazemos é muito positivo.
(setembro de 2026)